Um ano após o apagão: a segurança energética precisa de mais do que eletrificaçãoA transição energética europeia tem sido, nos últimos anos, marcada por uma narrativa dominante: a eletrificação crescente da economia, suportada por uma expansão acelerada das energias renováveis. Este caminho é não só inevitável como desejável, à luz dos objetivos climáticos da União Europeia. No entanto, eventos recentes, como o apagão ocorrido na Península Ibérica em abril de 2025, recordam-nos de forma clara que a segurança energética não pode ser tratada de forma simplista. Pelo contrário, exige uma visão pragmática e tecnologicamente neutra, onde os combustíveis líquidos continuam a desempenhar um papel fundamental.
O incidente elétrico que afetou Espanha e Portugal a 28 de abril de 2025 foi o mais grave registado na Europa nas últimas duas décadas. Em poucos segundos, uma combinação de fatores técnicos, incluindo instabilidade de tensão, oscilações no sistema e desconexões em cascata de unidades de produção, levou ao colapso da rede elétrica ibérica. Apesar da rápida atuação dos operadores e da reposição relativamente célere do sistema, o episódio expôs fragilidades importantes num sistema energético cada vez mais dependente da eletricidade e de fontes intermitentes.
Um ano depois, a principal lição não é apenas técnica, é estrutural. A forma como pensamos a segurança energética precisa de integrar a realidade operacional dos sistemas energéticos. O relatório elaborado pela EPCOL, com base nos contributos das suas associadas, é particularmente esclarecedor nesse sentido, ao demonstrar como uma falha elétrica rapidamente se traduziu numa perturbação generalizada na cadeia de abastecimento de combustíveis.
O setor da armazenagem, distribuição e comercialização de combustíveis líquidos foi fortemente abalado pela indisponibilidade de energia elétrica e pela falha quase total das comunicações, o que dificultou a coordenação entre operadores, autoridades e clientes. Terminais encerraram ou operaram com restrições severas, entregas prioritárias foram atrasadas e, em muitos casos, tornou-se impossível garantir o abastecimento a serviços críticos. Esta realidade demonstra que a disponibilidade de energia não se esgota na produção pois depende igualmente da capacidade de a mobilizar e distribuir.
Esta interdependência é central para compreender o papel dos combustíveis líquidos num sistema energético moderno. Por um lado, a sua cadeia de valor depende da eletricidade para funcionar em pleno, desde a bombagem até à logística de distribuição. Por outro, são precisamente estes combustíveis que asseguram a continuidade de operação quando a eletricidade falha. Geradores de emergência, serviços de socorro, infraestruturas críticas e cadeias logísticas dependem deles para manter níveis mínimos de funcionamento. O apagão revelou que esta dupla realidade não pode ser ignorada, sob pena de comprometer a segurança de abastecimento.
Ao mesmo tempo, ficou evidente a falta de preparação em vários pontos críticos. Postos de abastecimento considerados prioritários ficaram inoperacionais por ausência de geradores, infraestruturas essenciais não dispunham de autonomia energética suficiente e vários terminais não tinham meios alternativos para garantir operações mínimas. Mais do que falhas pontuais, estes exemplos revelam uma fragilidade estrutural associada à ausência de redundância num sistema cada vez mais dependente de um único vetor energético.
É neste contexto que importa recentrar o debate sobre os combustíveis líquidos. Num sistema energético com elevada penetração de renováveis, marcado por intermitência e maior complexidade operacional, a necessidade de fontes despacháveis e previsíveis mantém-se. Os combustíveis líquidos continuam a oferecer características difíceis de replicar, nomeadamente a capacidade de armazenamento, a facilidade de transporte e a rapidez de mobilização em situações de emergência.
Para além da dimensão técnica, existe também uma dimensão estratégica. As crises energéticas recentes demonstraram os riscos associados a dependências excessivas e a cadeias de abastecimento frágeis. A diversificação de fontes e vetores energéticos continua a ser uma condição essencial para a resiliência. Neste quadro, os combustíveis líquidos, suportados por infraestruturas consolidadas e cadeias logísticas maduras, constituem um elemento adicional de segurança que não deve ser descartado de forma prematura.
Importa sublinhar que este papel não é incompatível com os objetivos de descarbonização. O setor tem vindo a evoluir, integrando soluções de menor intensidade carbónica, como biocombustíveis avançados e combustíveis sintéticos, que permitem reduzir emissões mantendo as vantagens operacionais associadas aos combustíveis líquidos. A transição energética não tem de ser um processo de substituição abrupta, mas antes uma transformação gradual, baseada em soluções tecnologicamente diversas.
O relatório da EPCOL aponta também para a necessidade de reforçar a resiliência do sistema energético através de medidas concretas, incluindo o investimento em infraestruturas críticas, a definição de níveis mínimos de autonomia energética, a melhoria dos planos de continuidade de negócio e o reforço da coordenação entre operadores e autoridades. Estas recomendações evidenciam que a segurança energética depende tanto de decisões tecnológicas como de organização e governação.
Um ano depois, a mensagem é clara. A transição energética deve ser conduzida com ambição, mas também com realismo. Sistemas energéticos resilientes não se constroem com soluções únicas, mas com diversidade, redundância e capacidade de adaptação. Os combustíveis líquidos continuam a desempenhar um papel essencial nesse equilíbrio, não como vestígios de um passado a abandonar, mas como instrumentos de segurança num sistema em transformação.
Ignorar esta realidade seria tecnicamente arriscado e estrategicamente imprudente. O futuro energético europeu dependerá da capacidade de integrar diferentes fontes e tecnologias de forma coerente, assegurando que a transição energética não compromete aquilo que deve garantir acima de tudo, a segurança de abastecimento.
Laura Murtinha, Analista de Ambiente, Segurança e Qualidade, EPCOL
|