Um estudo recente apresentado num webinar da FuelsEurope destaca o potencial estratégico dos biocombustíveis avançados para apoiar a descarbonização do setor dos transportes na União Europeia. As principais conclusões foram apresentadas pelo Professor David Chiaramonti, do Politecnico di Torino, e por Maria Georgiadou, da Direção-Geral de Investigação e Inovação da Comissão Europeia (DG RTD), no âmbito de um trabalho que analisa as condições necessárias para desenvolver capacidade industrial de produção de biocombustíveis avançados na Europa.
De acordo com o estudo, a procura de biocombustíveis no transporte europeu poderá aumentar significativamente até ao final da década. Para cumprir os objetivos climáticos da União Europeia, a procura poderá crescer até 2,5 vezes até 2030, em comparação com os níveis registados em 2021. A indústria indica também estar preparada para investir, sendo possível que a capacidade de produção de biocombustíveis avançados e biometano atinja 23,6 Mtoe por ano até 2030, caso existam condições adequadas para o desenvolvimento do setor.
O estudo aponta ainda para um potencial relevante de matérias-primas na Europa, nomeadamente biomassa agrícola. Mesmo em cenários conservadores de mobilização, estima-se que o potencial disponível possa situar-se entre 310 e 836 milhões de toneladas secas em 2030, contribuindo para o desenvolvimento de cadeias de valor energéticas sustentáveis.
Um dos principais resultados do trabalho é que a descarbonização do setor dos transportes não poderá assentar numa única solução tecnológica. Nenhuma cadeia de valor isolada deverá conseguir fornecer mais de 50% dos combustíveis sustentáveis necessários, o que reforça a importância de um portefólio diversificado de tecnologias e rotas de produção capazes de utilizar diferentes matérias-primas e produzir combustíveis adequados para os setores rodoviário, marítimo e da aviação.
Apesar do potencial identificado, o estudo conclui que o desenvolvimento destas cadeias de valor exigirá um reforço do enquadramento político e financeiro. Estima-se que, até 2030, o investimento anual necessário para apoiar a construção de unidades industriais de produção de biocombustíveis avançados possa situar-se entre 3,8 e 7,5 mil milhões de euros, a que se poderão somar 700 milhões a 1,25 mil milhões de euros por ano destinados à mobilização de matérias-primas agrícolas.
Os autores sublinham ainda a necessidade de maior alinhamento entre políticas europeias, incluindo as políticas agrícola e energética, bem como a criação de mecanismos que permitam reduzir o risco associado a novos investimentos industriais. Nesse contexto, o estudo considera que o reforço de instrumentos de financiamento europeus e nacionais poderá desempenhar um papel importante para apoiar a expansão da produção e aproximar os custos dos biocombustíveis avançados dos combustíveis fósseis que substituem.
No conjunto, os resultados apresentados constituem um contributo relevante para o debate europeu sobre o papel dos combustíveis renováveis na transição energética. O estudo sugere que os biocombustíveis avançados podem desempenhar um papel importante na redução das emissões do setor dos transportes de forma eficaz e economicamente viável, complementando outras soluções tecnológicas no caminho para a neutralidade climática.